Meus medos

Por Mônica Montone
Freqüento meus medos de tempos em tempos. Peço licença, me benzo e abro a porta. Sinto o cheiro, a textura. Escuto seus sons. Ruídos me assaltam! São as batidas do meu coração. Quanto mais perto, mais deserto. Fracassos, tabaco, paixões platônicas, rejeições, traições, inveja, mentiras, nãos. Eles não têm forma. Apenas existem. São como sementes esquecidas em terrenos áridos.
Meus medos ardem como pimenta que escorre por descuido pelas narinas. Eles me petrificam. Me fazem culpada de atos que sequer cometi, mas nem por isso me fazem comedida - sempre estou mais exposta do que gostaria. E quando os visito certa de que eles evaporaram descubro outros tantos distantes das minhas pupilas.
Uns se transformam em calor e depois escorrem sob gotas de lágrima e saliva. Outros flutuam como gigantescas águias, prestes a me depredar.
Apenas uma porta nos separa. Não sei se ela é grande, se é pequena. Não sei se é de madeira ou espelho. Se é de pano, grades de ferro ou porcelana. Sei, apenas, que está fechada e que minha face corada sempre denuncia o que há por trás do anseio de não cometer enganos.
Me afligem as coisas que não entendo e por não entende-las não controlo. Não controlo os ventos nem as marés, mas sei exatamente como funcionam – eis o maior advento da ciência: dar segurança ao homem. Mas não sei como funcionam forças sobrenaturais - como o amor - e temo me perder e para sempre ficar abandonada num cais.
Talvez o meu maior medo seja não saber amar. E o que mais me causa dor é saber que não adianta sabê-lo.
Estou tentando apagar o rastro das minhas mentiras, mas às vezes desconfio que elas são as únicas verdades que possuo. Que são as únicas pistas que tenho sobre mim mesma. Somente minhas mentiras me dão a noção exata de que sou feita de sal.
Meus medos desistiram de esperar minha visita e durante as noites suspiram em meus ouvidos melodias que não compreendo. Os meus medos me arrepiam, mas me fazem sentir que estou viva.

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