Arquivo do blog

domingo, abril 30, 2006

Regresso

Uma semana! Esse foi tempo que minha alma levou para dar a volta ao mundo e regressar sem novidade alguma. Sentiu o ciúmes arder na garganta, como ferida que não sangra. Sentiu inveja dos viajantes que chegam, bagunçam armários alheios e depois partem como se nada tivesse acontecido. Sentiu raiva por não poder, sem a armadura da pele, tocar os lábios que desejava. Sentiu náusea... Sentiu! Até cair exausta em minhas vértebras.

Enquanto flutuava, percorrendo bosques, praças, casas antigas e pequenos riachos , espreitava outras almas fugitivas. Elas se misturavam numa festa de cores, tal qual fogos de artifício no céu de janeiro. Explodiam e gritavam. Gemiam .O que queriam aquelas almas? O que queria ela? O que queria eu?

Eu! Um corpo entregue ao gozo e às lágrimas. Eu! Que tantas vezes vacilei ante o desconhecido. Eu! Que sempre entreguei meu silêncio aos olhos da serpente. Eu! Que sem paciência muitas vezes caí doente de paixão. Eu, que nada fiz em vida, se não reclamar.

Reclamar do frio. Reclamar do calor. Reclamar das noites sem estrela. Reclamar das ausências. Reclamar da seca. Reclamar das inundações.

Uma semana! Esse foi tempo que minha alma levou para dar a volta ao mundo e regressar sem novidade alguma

Sem palavras, contou-me que tudo estava em sua perfeita ordem. Inclusive a desordem do meu coração. Contou-me que nada é ausente quando o presente é sentido como um milagre. Que toda a natureza dançava ao som da mesma sinfonia e que inclusive minha agonia, nada mais era do que um dos instrumentos sagrados da orquestra que regia o mundo– sem ela, o coro de minha vida desafinaria.

Contou-me, por fim, que ela era uma entidade separada de mim. Que generosamente aceitava coabitar o mesmo espaço que o meu eu, mas que somente ela, até agora, tinha experimentado as dores e delícias de um vôo sem pouso certeiro. Que eu, brincava de ser alma, mas não passava de uma criança tola. Uma criança que obedece seus instintos, inclusive e principalmente, o instinto de se proteger do abandono.

E antes de se acomodar em meu corpo e embalar meus sonhos, propôs que eu ateasse fogo em tudo que aprendi e me lançasse do topo das minhas fantasias, para, por fim, conhecer a umidade, a doçura e amargura da terra. Só assim eu seria como ela: alma.


(Escrito por Mônica Montone)

Nenhum comentário: