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quinta-feira, junho 22, 2006

A essência do Flamenco




Visito sempre o blog da Aryane Sanchez, uma flamenkita de 1a. categoria... li com apreço este texto, de uma profundidade intelectual e emocional incomparáveis...resolvi trazê-lo ao meu blog, e espero que ele toque a você tanto quanto me comoveu...!

"A cada dia me convenço de que o Flamenco esconde segredos, esconde sabedorías e uma verdadeira "parte interna" que nem toda cabeça aguenta, nem todo olho vê, nem todo ouvido escuta, nem todo corpo sente... Eu desde criança, bem antes de me interessar pelo Flamenco já era uma pequena estudiosa das "ciências ocultas", venho de uma familia e de uma educaçao espiritualizada, bastante privilegiada nesse sentido porque nao fui criada dentro da ignorância. Isso nos dá a capacidade vital de ler as entrelinhas. Dentro de todas as escolas de sabedoria com as quais eu tive contato, conheci o “4º caminho”, com a filosofia de Gurdjieff que é muito interessante pra qualquer pessoa que nao viva ao redor do seu umbigo.Te dá recursos pra lidar com situaçoes e pra criar novas situaçoes também. Um dos pilares dessa filosofia é a clara divisao interna, dos 3 centros. O centro racional, o centro emocional e o centro físico-instintivo. Cada um desses centros tem uma memória independente, cada coisa tem sua funçao e o principio de um colapso ou "um mal uso do nosso aparelho" seria deixar outro centro fazer o trabalho de um centro específico, o centro correto para aquela funçao. Venho desenvolvendo uma percepçao faz muito tempo. Eu aplico a história dos 3 centros ao Flamenco. Nao só a mim, num nível pessoal ao tentar separar os 3 centros na minha prática diária do Flamenco pra economizar energia e nao sobrecarregar demais um dos centros, emocional nesse caso. Mas vendo a estrutura original do Flamenco como um ensemble, de um cantaor, um guitarrista e um bailaor. Vejo o cantaor como o centro emocional, o guitarrista como o centro racional e o bailaor como o centro físico-instintivo. Cada um faz um trabalho e cumpre com sua missao, entrando em harmonia e atuando em equipe. Nao estou dizendo que quem toca é mais racional( que nao tem nada a ver com o que se entende por inteligente, até porque cada centro é uma "inteligencia") e quem cante seja mais emocional e quem baile seja mais "físico". Mas dentro dessa composiçao original "cante-baile-guitarra", observo que a guitarra tem sua missao como o centro racional(nao confundam o termo com as palavras “frio,sem graça,sem sentimento”...nao tem nada a ver uma coisa com a outra.) Mas como o centro racional do Flamenco,ela tem a responsabilidade de fazer tudo "cuadrar",de medir,de encaixar,de ligar os outros elementos.Música é matemática,e ainda assim é imprevisível as vezes.Mas o bom da matemática é que ela nao se contamina pelas crenças,pelos sentimentalismos.É um dos elementos que nao devem nunca se descontrolar, porque descontrolaria todo o resto e nao tem jeito de "ajeitar" as outras coisas até que ela se ajeite antes,sai do compás, desaparece a "ordem", e nao há mais o que fazer. Se a guitarra falhar, falha tudo.Ela tem que ser o elemento mais seguro, e da maneira que eu vejo é o que tem mais responsabilidade. Seu desenvolvimento completo e “boa utilizaçao” está no estudo, nas horas de prática sendo que nao tem outra maneira de conquistar o domínio desse centro e desse elemento do Flamenco sem esse tipo de sacrificio.Existe a necessidade de manter esse elemento e esse centro “sempre ocupados”, continuamente trabalhando, pensando, buscando soluçoes e resolvendo problemas que surgem quando os “outros dois resolvem se juntar”. É o fator harmonizador entre o instinto do baile e a emoçao do cante..é o que diz: A ver...lo hacemos otra vez? Y otra vez, y otra vez y otra vez...porque se falta a boa disposiçao desse elemento, ou sobra a preguiça, a vida seria um “palo seco”...e sem um bom centro racional seríamos tao habilidosos como um tronco de madeira...ENTAO: um palo seco! O cante é o centro emocional do Flamenco, é quem na maioria das vezes "sacode" os outros dois centros e o empurra a fazer coisas nunca antes imaginadas.Ele é quem define realmente o que vai acontecer, porque tem sua estrutura e sua autoridade.Mas o bom centro emocional assim como o bom cantaor,ainda que esteja ai com suas "fatigas" nunca chega a se identificar completamente com esse sofrimento transmitido e de certa forma necessário. Senao nao duraria mais de um show, morreria,se desgastaria,se fragilizaria de estar ai todo o dia com seus "quejíos", morrendo de verdade todas as vezes que dissesse "a Diós le pido la muerte".Já pensou se "os anjos dissessem amem" a certos tercios Flamencos???"Me está matando mi soledad","cuando una mare se muere, se marcha y no se vuelve a ver", "tengo un cuchillo pa quien se meta conmigo"... seria um verdadeiro crime passional.O cante assim como centro emocional é o mais "calejado", porque na atualidade do ser humano ele só pode continuar funcionando pelos "calos" já existentes,e a maneira de saber lidar com as emoçoes fortes é já tendo passado por elas e já ter aí um calo formado.Um calo é um trauma,uma lesao.Mas nem todo mundo sabe que existem recursos pra que isso nao aconteça, existem técnicas pra se emocionar sem se desgastar, para cantar sem se acabar...para sentir as coisas de verdade sem sobrecarregar o coraçao e ter um treco toda vez que acontece uma coisa desagradavel. Nao se sabe lidar com a emoçao porque ninguém nos ensina, e o cante também tem essa faceta do aprendizado sem ensino direto e muitas vezes é uma questao de inercia. “Quando eu quebro um copo eu reajo como a minha mae reagia, e eu canto como a minha avó cantava, de tanto escutá-la cantar. Ela nunca me disse se era assim ou assado aquele cante, eu simplesmente tenho arquivado em mim as melodía que ela cantava, as letras que ela cantava que por sua vez aprendeu com seus antepassados e assim continua a saga, a vida...nem sempre se tem a oportunidade de encontrar um professor na vida emocional e no cante. Nem sempre vai aparecer alguém que te ensine a respirar corretamente, a nao disperdiçar energia, a nao se estragar e que te enriqueça com recursos para lidar com as emoçoes e com os cantes.Porque tem cantes e situaçoes na vida que exigem muito de nós, exigem fôlego para caramba, exige que você se faça respeitar e meta medo, que imponha o silencio com voz e que faça calar enquanto se está presente, e dê o que falar depois. Essa capacidade para lidar com a emoçao forte é também chamada de PRESENÇA DE ESPÍRITO.Tem gente que relate histórias de perigo real que viveu, e diz que na hora H teve uma calma incrível e conseguiu lidar com a situaçao, conseguiu desarmar o bandido, conseguiu desviar a tempo de nao chocar com o outro carro.Por pouco! E tem cantaores que se deixam levar pela emoçao e se perdem no compás, como tem quem chore de verdade cantando e num murmuro oportuno recupera o compás e todo mundo grita OLÉ!QUE ARTE!!! E o baile...ai o baile!O baile é o mais visual de todos os elementos.Os três fazem música mas ninguém aparece tanto como o baile. É o único que nao dá para desenvolver seu potencial ao máximo estando sentado ,é ou nao é? É o único que exige sempre a verticalidade de quem o executa, e essa verticalidade aplicada ao entendimento de que o baile é o centro físico-instintivo, é o que permite o equilibrio. Estar em pé, firme, forte e saudável, é fundamental para o desenvolvimento do centro físico. E o centro físico tem que ser cultivado, mimado com muito Amor do seu proprietário, e que fique claro que isso nao tem nada a ver com o comercial “culto ao corpo”...é bem mais complicado porque nao se trata simplesmente de estar bonito e agradavel aos olhos, mas de ter saúde, resistencia, disciplina e integridade. Hoje em dia a humanidade tem seu corpo esquecido, porque já nao temos que caçar para comer. Eu abro a geladeira e tenho tudo o que eu preciso. Nao faz parte da rotina, correr...no entanto o que é que você faz quando vê o último ônibus para chegar em casa saindo da plataforma...CORRE!!!!Levanta os braços, tensiona os ombros, se desespera...perde o ônibus porque nao tá acostumado a correr e fica doente com torcicolo a semana inteira, além de ter uma dor muscular que parece que te deram uma surra...e olha que foi só uma corridinha de 3 metros de distancia,que deixou seu coraçao disparado, sua boca seca...e uma dor de cabeça!!! O corpo devería estar sempre preparado para lidar com todo tipo de situaçoes e eventos, e isso exige uma dedicaçao, um grande esforço e muitas vezes sacrificio.Pode que seja o mais sacrificado dos centros pela falta de técnicas(nao técnica, essa palavra está “apestada”, queimada...tem gente que a sataniza e tudo, por nao saber usá-la, e nao existe só uma técnica, existem várias.) Existem várias técnicas para preparar o corpo para o Flamenco, e o centro físico para a Vida. Mas o mais importante de tudo é a saúde. É transmitir beleza ainda que nao se seja uma pessoa bela, é transmitir visualmente a mensagem dos outros dois centros/elementos. Por mais que a letra seja “feia” , o corpo do bailaor nao pode transmitir feiura jamais, por mais triste que seja o baile. O corpo nao pode se deformar, pode se contorcer, se agoniar, sofrer...mas perder essa “forma” seria estragar todo o esforço dos outros dois elementos. Seria atrapalhar a ordem natural das coisas e fazer com que o corpo se torne uma coisa dispensável. Nessa dimensao e enquanto estivermos encarnados, nao vai ser assim. O corpo tem que funcionar, e o show deve continuar . O corpo tem uma inteligencia só sua, que nao tem nada a ver com os outros dois. É a memoria corporal e celular. O corpo registra tudo o que ele vê, e tem a capacidade especial de registrar o que ele gosta e o que lhe ensinam. O baile Flamenco é um Universo cheio de personalismos, porque cada corpo é um corpo. Muito se aprende pela observaçao, pela imitaçao, pela admiraçao...mas o movimento perfeito, o passo ideal é aquele “que te pide el cuerpo”. É aquele nao nasce da memória racional de um dia ter aprendido..."ai como era"???? É aquele em que se escuta a música e sai sozinho, natural, autêntico e original....porque se origina no momento em que recebe o estimulo, como um reflexo ao cante e às “sinalizaçoes” e acordes da guitarra. Para que o corpo origine um reflexo, é necesario que exista um registro prévio, musical no caso do Flamenco. Eu te aperto e você grita, eu te chuto e você chuta de volta...EU CANTO OU TOCO... E VOCÊ BAILA! Se meus pais tivessem me ensinado a chorar toda vez que me ofendem, eu provávelmente choraria e me lamentaria até hoje. Na nossa cultura ocidental, se aprende a revidar as ofensas ou levar desaforo para casa, mas existem outras culturas onde nao funciona assim. Onde nao existe o sentimento de “deixar barato” quando alguém é ofendido por tanto nao há “necessidade” de revidar. É uma questao cultural, onde se aprendem códigos de conduta desde pequeno. E o baile Flamenco tem também o seu “código de conduta”, tem o seu registro de “o que fazer em cada momento e situaçao.” É injusto exigir de alguém que domine esse código de conduta se nunca teve oportunidade de aprendê-lo, nem contato com ele. Esse código que leva no mínimo 200 anos sendo desenvolvido, nao é uma ciencia exata. Porque cada corpo, cada artista tem sua própria personalidade, seus próprios reflexos porque cada um reage de uma maneira aos estímulos ainda que eles claramente provoquem sensaçoes parecidas. Por exemplo: meter a mao no fogo. Se eu metesse a mao no fogo agora, eu gritaria algum palavrao e começaria a chorar, porque essa é a minha reaçao ás queimaduras. De repente um chinês, ao queimar a mao respiraria fundo, apertaría os olhos e se formaria um nó na sua garganta...duas reaçoes diferentes, mas os dois estamos “queimados”, a cicatriz é parecida mas para cada um de nós aquele momento, aquele estímulo teve uma significaçao e uma exteriorizaçao diferente. Essa significaçao diferente de cada um, é o que proporciona a existencia do Artista, senao seríamos todos uns burócratas, infelizes e viveríamos sem nenhum sentido. Nao tem coisa mais irritante que assistir a um bailaor(a) que faça sempre tudo igual, ao que ver um baile seu, é ver todos, que nunca surpreenda, que sempre adiante o que vai fazer ou que se valha de “efeitismos”, mandar beijos ao público, caras e bocas...insuportável para quem entenda de Flamenco e queira ver Flamenco. O centro físico nao deve se valer de efeitos também. Se o centro físico dói e se aplica um analgésico, a dor passa mas o problema que originou a dor continua lá, escondido, falseado...e ignorar os sinais do corpo, sempre leva à destruiçao. O nosso corpo é a materializaçao da nossa verdade, é o reflexo do centro emocional e do centro racional. E o baile deveria ser isso também. Se está soando Flamenco, se baila Flamenco, nao outra coisa. Isso seria uma mentira, e mentir pro público é um grande desrepeito, um pecado. E pergunto: um ignorante é um mentiroso? Uma pessoa que nao sabe o que está fazendo nao devería subir num palco e se expor, “pero hay gente pa tóo”. Mas pode que essa pessoa ao ignorar a verdade, nao esteja mentindo. Esteja simplesmente fazendo as coisas realmente mal porque a limitaçao é a sua verdade. E o que fazer com um centro físico limitado? Tem conserto? Tem concerto? A resposta é: enriquecer-se com a maior quantidade de recursos possíveis e fortalecer cada um eles. Reconhecer a individualidade de cada recurso e trabalhar sobre ele detidamente, e aprender a misturar recursos/técnicas. Porque se um dia falha uma, você tem outras...é triste falar do centro físico, porque esse é o único perecível, é o único que realmente morre. O corpo envelhece, perde as forças e sucumbe. Um dia todos vamos morrer e se a gente tiver muita sorte, vai ser porque acabaram as forças e nao porque uma tragédia separou a nossa alma do nosso corpo. Se um dia falham os joelhos, eu tenho o quádriceps do Hércules e posso continuar dançando e buscar a cura desse problema. Se um dia me falha a coluna, eu tenho um abdominal tonificado e continuo de pé! Se me falham os tornozelos eu ainda tenho a cabeça erguida e muito equilibrio de anos e anos de estudo e experiencia. Porque a resposta pro baile e pro centro físico em uma palabra, é o trabalho. Um bom centro físico e aqui nao me refiro a forma física, mas um corpo saudável em condiçoes de encarar o que vier, seja reagir e agarrar um filho que escapa das nossas maos atrás de uma bola quando esta resolve atravesar a rua no meio da brincadeira, ou seja simplesmente o corpo que tem que estar presente para que um individuo continue existindo sobre a face da Terra, o corpo físico deve estar preparado, cuidado, trabalhado e nem sempre isso se refere à prática de atividades físicas. Muitas vezes só a alimentaçao faz uma grande diferença. E no caso do Flamenco, por mais Arte que se tenha, que enorme frustraçao ouvir a música, se emocionar e nao ter uma resposta bonita do corpo para oferecer, porque ele nao estava preparado técnicamente para essa “surpresa”. E um corpo tem que ser alimentado de coisas boas assim como um bom baile tem que se alimentar de boas idéias. Mas e a alma do negócio? Onde está o espírito da coisa?Se o cante, a guitarra e o baile sao respostas, manifestaçoes de um coisa que veio antes.Se cada um dos centros só existe porque sao instrumentos de alguma coisa, superior a eles. Para Gurdjieff seria o que ele em sua literatura chama de “essência”. E qual seria a essencia do Flamenco? Existe uma maneira de colocar isso em palavras? Acho que já inventaram uma palavra para isso...O que você pensa que é? Será que agora mesmo você tá pensando o mesmo que eu? Você sente o que é? Ou você sabe o que é? O que é?...Gurdjieff safado! Outra vez o danado tem resposta para tudo: o poder do “eu sou”!! Eu sou! E ponto! Nao tenho que completar com nenhum adjetivo ou substantivo depois do verbo. Concluo entao que a essência do Flamenco simplesmente É. Es decir, “ES”... eso es!


(aryanesanchezmultiplycom)

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