Butterfly

"...Era quase um ritual. Não importava se o dia tinha sido morno, se ela tinha comprado mais uma peça de roupa laranja, se tinha tropeçado ao atravessar a rua, se tinha brigado com alguém ou simplesmente ficado o dia todo mirando as paredes, fazia invariavelmente a mesma coisa. Ao cair da noite, banhava-se em água quente quase que pondo sua pele a prova, e permanecia em total silêncio. Ia para o quarto, tirava a presilha verde de borboleta que usava nos cabelos e guardava-a na gaveta de plástico em cima da penteadeira. Checava se não havia ninguém por perto, e deslizava a janela sorrateiramente até fechá-la. Trancava a porta do quarto com total delicadeza, e a passos largos se encaminhava para o armário. Nunca conseguia evitar de suspirar nessa parte. Normalmente deixava as luzes acesas, ou até totalmente apagadas, mas naquele dia resolveu acender velas, só para experimentar. O cheiro de cera estava diferente, lembrava café feito numa manhã de frio. Suas mãos estavam firmes, e ela já podia ouvir o barulho sob a madeira. Pegou a chave escondida dentro do vidro vazio de perfume, sentia o metal preenchendo a sua mão. Encaixou na fechadura da segunda gaveta, girou com facilidade e deslizou-a para fora. Bastou o primeiro raio de luz tocar o interior da gaveta para que elas voassem. A primeira a sair foi um pequenina com asas de um azul cristalino. Hesitou um pouco diante da luz tênue, e deixou-se libertar pelo quarto. Logo todas elas, uma a uma, decolaram da gaveta aberta retomando vida, enquanto ela permanecia sentada no chão, sem cansar de contemplá-las. Eram tantas quantas poderiam caber numa gaveta, talvez trinta ou vinte. Ela nunca tentava contá-las, mas conhecia cada uma, o tamanho, a cor e o estilo de vôo, só não sabia sua textura: não se permitia tocá-las. Deitou no chão e deixou brotar o sorriso de sempre, observando as sombras que elas projetavam na parede. Acompanhava cada uma pousando e voando, o modo como elas brigavam ou amavam, era como um mundo particular. E como continuação do ritual diário, ajoelhou-se e sentou sobre as pernas, colocou as mãos sobre os joelhos com as palmas para cima, e fechou os olhos. Se deixou por uns instantes ouvir o revoar delas, e começou depois a dizer uma prece, tão baixa que, além dos anjos, somente ela poderia ouvir. "Faça com que eu enxergue sua mão dada a minha, Senhor, mesmo na mais completa escuridão. Proteja o meu vôo contra os ventos contrários, e se eu cair, que seja somente por vontade Sua. Receba minha essência que coloco nas tuas mãos todos os dias, Pai, e faça dela instrumento de tua luz. Construa campos intransponíveis para o mal em torno daqueles que amo, e me ensina a transpor em paz as muralhas em torno dos que não amo. Colha de minha arte prazer para todos os seres, e mande teus exércitos em prol de todo filho teu que não conseguir agüentar sua cruz (inclusive eu, se um dia precisar). Encha de sabores deslumbrantes todo o meu caminho, inclusive além do que posso ver. Me ensina a distribuir o amor que colocaste no meu peito, e que transborda além da extensão da minha alma. Me leve a repousar em Ti todo sentimento que me faz viva, e me guie para entender todo o conhecimento do céu e da Terra, ou ao menos para não me iludir. Que minha felicidade infinita possa correr para o mar de uma plenitude que não seja só minha." As borboletas estavam mais calmas, quando ela abriu os olhos pode ver que uma vermelha grande acabara de pousar nas suas costas, voltando a voar quando a luz das velas tremeluziram um instante. Seu corpo havia sido invadido por aquele calor que só acontecia nestes momentos, e voltou a deitar para observá-las voarem de volta. Cada uma a seu tempo, retornou à gaveta placidamente, quase que com uma expressão de conforto, adormecendo e ficando imóvel ao pousar. Até a última (uma branca que voava agitadamente), ela não se moveu do chão. Depois levantou, deslizou a gaveta de volta quase que sem notar, num êxtase de si mesma que estava. Devolveu a chave, cerrou as portas, abriu a porta do quarto para que o ar invadisse o espaço. Assoprou cada vela até que seu nariz tocasse o breu, e deitou-se no leito completamente relaxada. Nunca precisarei de casulo enquanto tiver asas, ela pensou, e adormeceu profundamente...."

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