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domingo, julho 02, 2006

Prelúdio


"...O palco está escuro. Vinda de uma caixa ouve-se uma batida, grave, ela sente no fundo da barriga. Duas, três, a sensação não é de nervosismo pelo palco, ela não sabe explicar para si mesma, firma mais o pé no chão, sente aquele que é seu território, fecha os olhos, e soa o primeiro acorde. As notas brilham e voam, abrem seu coração melodiosamente, ela pára de pensar, torna-se imortal. Os acordes se seguem e seus braços começam a se mover, com o movimento deles a luz vai nascendo, seus olhos sobem do chão para o público, mas não é o público que ela vê. Na verdade não enxerga nada, nesse estado em que se encontra não existem mais sentidos, só o corpo que vê, o corpo que ouve a música rasgando seu coração, o corpo que sente a vibração do ritmo explodindo em cada célula do seu sangue. Ela caminha pelo palco, cada passo é uma vida toda a contar, ela não tem idade agora. A música segue, a letra flecha sua carne, conta histórias de um povo, muitas almas, e ela segue em seus movimentos novos e antigos, sente o ar dançando junto com ela, e acaricia-o com o tecido de sua saia em troca. O ritmo cresce, e seus pés começam a expressar o turbilhão de sensações fortes demais para se ter dentro da pele, rasgam o chão, golpeiam, o salto se projeta à frente, a planta dos pés voam em círculo, tudo se torna rápido demais. Ela não sabe, mas ali está toda a raiva e inconformismo que ela sente na sua vida mortal. É também sua própria revolta que ela expressa ali, mortalmente, como um veneno espalhado em segredo. Tudo pára de repente. Essa é a parte preferida, ela sente por um segundo a presença do público, atônito, ela não está respirando, não precisa. Nasce de novo com a música, sorri debochadamente, numa posição dentro de si que nenhum outro ser no mundo já experimentou, fulmina o horizonte com os olhos pintados de negro, tudo dentro dela envolve o momento e já não é mais preciso "ser". Suas mãos passam pela coxa para provocar a saia a ir um pouco acima, seu coração bate junto com os dedos do músico no violão. Mais rápido ainda, dá um giro e pára secamente, de frente para o público, com os braços à frente. Acabou. Volta a si, sem graça, agradece, se sente cansada e satisfeita ao mesmo tempo. Recebe a mortalidade de volta, serenamente ..."

wingedlifeblogger



(e é sempre assim, como a gente se sente , antes e depois que baila...)

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