Tempo
"...alguma invenção que faça
o tempo parar esta tarde?”
o tempo parar esta tarde?”
Eu podia ficar ali parada, por horas, ouvindo o que ele dizia. O tempo parecia outro, de olhar, sentir, ouvir, entender os barulhos, os vazios, os conflitos, e eles eram muitos. Estávamos ali de passagem, no meio de todo aquele verde, os quatro templos repletos de significados, companhia boa, o pensamento longe, um silêncio que dizia quase tudo, apenas um desejo bobo que, apesar das tentativas (desastradas, coitadas), não conseguia se contar.
“eu queria ter uma casa, numa ilha sobre o mar.
e dentro dela você com seu sorriso.
ou então você com seu sorriso.
sem a casa, sem a ilha, sem o mar”
e dentro dela você com seu sorriso.
ou então você com seu sorriso.
sem a casa, sem a ilha, sem o mar”
Ele dizia, se entendi direito, que o silêncio, o afastamento e a disciplina ajudam, sim, a desatar os nós, aliviar as tensões, curar as feridas, digerir as dores; mas nós, tensões, feridas e dores atormentam os seres humanos, desde que o mundo é mundo, na roda gigante, no quarto repleto de livros, na casa vazia, no quintal do vizinho ou, pode acreditar, no Mosteiro Zen Morro da Vargem.
Era uma frase certeira perdida no meio de tantas outras, perdida no calor, no cansaço, no excesso, perdida entre os nós, o tempo, as tensões, os barulhos, as feridas, os vazios e as dores, perdida e certeira como aquele desejo bobo que, apesar das tentativas (desastradas, coitadas), não se conseguia contar, e era curioso que tivesse sido dita por um monge que vive recolhido num mosteiro.
Ali, segundo ele, mesmo que não pareça, há tantos ou mais conflitos que em qualquer outro lugar, e para desatá-los, aliviá-los, curá-los ou digeri-los é preciso mais que silêncio, mais que afastamento, mais que disciplina, e não adianta fechar as portas, fazer as malas ou procurar refúgio no meio do nada.
“só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados.
só posso ouvir a verdade do outro se parar de tagarelar”.
Voltei pra casa pensando naquilo, e no quanto precisamos dos ruídos de dentro, mais do que da ciência e do dinheiro, mais do que de terapia e de ginástica, mais do que de vitamina, anfetamina, adrenalina e fluoxetina, mais do que destas palavras (ou daquelas, que cada dia me encantam um pouco mais), porque só assim ciência, dinheiro, vitamina e ginástica farão – se é que fazem, ó dúvida cruel - algum sentido...
(todosentimento zip net)


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