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terça-feira, agosto 14, 2007

Para minha amiga Débora....




"Guardava ainda os medos de antes, e a impressão de que talvez não soubesse mais viver intensamente, porque faltava tempo e sobravam amarras, porque faltava cor e sobravam limites, porque faltava vinho e sobrava cansaço, porque às vezes não sabia ao menos o próprio gosto, a própria vontade, a própria dor.
Tinha ido porque tinha de ir, sentado do lado direito da mesa, bebido do primeiro gole e depois outro, desconversado o quanto podia, e só. Era uma noite daquelas que não deviam existir, em que não chove nem faz frio, em que não se pintam os olhos nem as unhas, não se vestem vestidos de flores azuis nem sapato com salto, daquelas como o filme sem ritmo nem brilho que, vez por outra, a televisão repete durante a madrugada.
Sentia as coisas todas distantes, as pessoas e as coisas, e talvez por isso ou pela falta de esmalte nas unhas ou de lápis nos olhos não achava que fosse poderosa nem inteligente, bonita nem perfumada, nada; apenas repetia que a ruga de expressão entregava os pontos, escancarava os excessos, fazia pesar o rosto marcado por tempos, tantos, de desesperança.
Parecia a personagem de um livro que nem ao menos lembrava o nome, metida em si mesma por pura inércia, seguindo adiante porque tinha duas pernas e ossos e músculos e sinapses e nervos e cérebro. Parecia ou talvez fosse, e queria desligar o rádio, a pilha, o cérebro, o resto, mas as unhas dos pés doíam, os fios de cabelos cheiravam cigarro e a maldita saudade brigava com o que restou. Os contos de fadas que fossem para os quintos dos infernos - que diabos era amor?
Então ele apareceu.
Conversaram por algumas horas, e havia histórias em comum e preferências em nada iguais, havia família adorável e pouco convencional, e as de ambos tinham falhas no cromossomo 17, e havia "O Livro do Riso e do Esquecimento", "As Bicicletas de Belleville", o poema da casa numa ilha sobre o mar, havia amigos de um e de outro, e uma vida inteira para ser recontada.
Pensou dizer que ele tinha os olhos mais bonitos do mundo e se era de fato verdade que queria ser cada vez mais dela. Pensou repetir que ele primeiro encheu de alegria o vazio daquele tempo e depois de algum modo transformou seus dias. Pensou contar os risos e os abraços das últimas noites, uma pequena construção após outra pequena construção, e de como tinham sido inesperados e muitíssimo bem-vindos os risos, os abraços, as construções.
Pensou dizer que aceitava a música, o nome e as possibilidades, fossem elas a Sinfonia 40 de Mozart, uma menina chamada Valquíria ou um dia a Alemanha. Pensou repetir que as diferenças não fariam diferença, eram apenas números, percepções e preferências, 83 contra 77, contemplação contra trabalho, pintura contra literatura.
Pensou dizer os olhos, a verdade, a esperança, o riso, Mozart e Alemanha, com todas as letras e de todas as formas, porque, a partir daquele momento, a vida não era mais aquela; era outra."
(retirei da net, escrito por Ana)

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